De acordo com a Wikipedia medalhas são pequenos objetos artísticos portáteis, geralmente feitos de metal, que carregam desenhos ou efígies em ambos os lados. Elas são concedidas como prêmios ou condecorações em diversas áreas, incluindo esportes, serviços militares, realizações acadêmicas e contribuições sociais.
Pois é, tenho mais de 50 medalhas, frutos de esforço, disciplina e dedicação. Foram provas de corrida de 10km, 21km, 42km. Tem medalhas de triatlos feitos na terra, no asfalto, medalhas de triatlo de curta duração e medalhas dos vários Ironmans que fiz.
Estão todas guardadas em uma gaveta e a pergunta natural é: por quê?
Um novo Paulo
Há cerca de 10 anos, quando iniciei a pratica esportiva, primeiro pedalando, depois correndo, e por fim participando de triatlos, eu comecei a criar um novo Paulo. Um Paulo que pesava 100kg deu lugar a um que pesa 70kg. Um Paulo que se olhava no espelho e tinha vergonha deu lugar a um Paulo que sente orgulho da imagem refletida. Um Paulo que dormia mal e que não se autoconhecia para um Paulo que valoriza o descanso e que se autoconhece, de corpo e alma.
Isso inflou meu ego e transbordou para as redes sociais. As medalhas eram, nesta época, estampadas na parede do quarto e no feed.
Em busca de autoconhecimento
A medida que as medalhas eram conquistadas e meu ego crescia, conheci a filosofia de Marco Aurélio, Epicteto e Sêneca; grandes nomes do estoicismo, embora banalizados pela internet. O fato é que estes caras mexeram muito comigo.
No livro Meditações, de Marco Aurelio, ele cita: “Não deixe a fama ou o que dizem de você desviar sua atenção do que realmente importa”.
Eu vivia uma luta interna. Ao mesmo tempo que eu sofria muito nos treinos e buscava resultados melhores nas provas, eu me frustrava. Sempre havia alguém melhor do que eu, que parecia lutar menos, se dedicar menos e estar constantemente feliz. É como se outros tivessem nascido com o dom e como se eu carregasse um fardo. Me mantinha focado, mas buscando entender o motivo de tanta dor e sofrimento nos treinos.
Foi então que, influenciado pelos pensadores citados, resolvi abandonar as redes sociais. Passei a não mais acessar, a não mais seguir pois aquilo me deixava triste. Eu não queria largar o esporte, pois ele já compunha a minha identidade.
O momento da mudança
Algo estranho aconteceu, quando em um churrasco aqui em casa, a gente conversava sobre competições e eu havia citado que tinha participado de dezenas de provas e as pessoas duvidavam. Citei que as medalhas estavam na gaveta, guardadas, foi então que me convidaram a pegá-las. Peguei, e a surpresa e admiração das pessoas que estavam presentes, me fez refletir: Parece que eu devo me orgulhar mais disso.
No entanto, apesar da admiração, as medalhas permanecem guardadas e continuam sendo acumuladas dentro da gaveta.
Na semana passada, quando eu fazia uma faxina nas minhas coisas, peguei novamente nas medalhas e algo diferente me impactou. Eu conseguia lembrar, com imagens, de forma muito clara, cada um daqueles momentos. Eu conseguia praticamente sentir o que eu tinha sentido quando eu cruzei a linha de chegada. São 52 medalhas, 52 momentos que foram internalizados dentro de mim de forma forte, perene. Achei isso incrível! Fiz um exercício em tentar lembrar de outros momentos em meu passado, momentos em que eu trabalhava, me relacionava e as memórias não pareciam tão vividas quanto aquelas trazidas pelas medalhas.
Eram como fotos, só que ao invés de retratar o momento, aquele metal, dependurado em um cordão, me fez entender que eu deveria sentir mais orgulho de tantos momentos como aquele.
O novo lugar das medalhas
Hoje as medalhas saíram da gaveta. Não estão na sala, para qualquer um ver, é fato, nem tão pouco foram postadas em minha rede social, pois até o momento deste post eu ainda continuo afastado das redes, mas agora as medalhas estão comigo, ao lado do meu rolo de treinamento de bike, na lavanderia aqui de casa. Aos poucos eu vou curando as feridas de um ego reprimido e contido e alocar estas medalhas, ao lado do lugar onde treino de tal forma que eu possa me lembrar que valeu a pena cada um daqueles momentos, seja um passo rumo a uma metanóia que sinto está vindo.